RELACIONAMENTO


"Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu.

Também vos digo que, se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai, que está nos céus.
Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.
Então Pedro, aproximando-se dele, disse: Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei? Até sete?
Jesus lhe disse: Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete."


Nosso propósito é meditar e propor uma reflexão sobre a importância dos relacionamentos em nossas vidas. Queremos ser guiados e direcionados por aquilo que é ensinado por Deus, e não seguirmos as nossas vontades ou aquilo que achamos ser o certo. Não nos falta boa intenção ou vontade de acertar, o que, sem a revelação e direção do Espírito, nada se aproveita. É necessário ter um coração favorável para conhecermos o que o Pai tem a ministrar sobre as relações humanas, livrando-nos de todo pré-conceito que nos impede de alcançarmos o pleno entendimento sobre os relacionamentos.
Queremos chamar a atenção para uma primeira e impactante informação: relacionamento não é coisa do homem. Não foi criado nem desenvolvido por nós (ainda que seja para nós). Não nasceu do fato de existirem duas pessoas na Terra e elas terem começado a interagir. Por que é importante constatarmos isso? Porque ao percebermos a origem divina (não-humana) dos relacionamentos, Deus nos chamará a mudar nosso entendimento em relação aos princípios e valores que regem nossas relações. Ele nos ensinará coisas novas. Irá redimir muitas coisas em nossas vidas. Vai tratar nossas raízes e sarará toda a árvore, de forma que dê muitos frutos. A vontade de Deus é que conheçamos e vivamos aquilo que está na mente e no coração Dele. Reconciliação, redenção, libertação. Ele quer nos reconciliar uns com os outros, redimir nossos relacionamentos e nos tornar livres nas relações. São essas coisas que o Pai fará em nós e através de nós para que experimentemos a boa, perfeita e agradável vontade de Deus.
Quando Deus criou homem e mulher, a Bíblia descreve os  seus dizeres: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança” (Gn 1:26). Essas palavras nos indicam claramente que o ser humano foi criado a partir de uma referência preexistente. Uma referência de pessoa, mas acima de tudo uma referência de relacionamento. Já havia, desde a eternidade, relacionamento no céu. Deus então, transfere, compartilha, reparte essa virtude com os homens. Cria uma imagem de si mesmo, uma semelhança daquilo que desfrutava. Sem querer colocar palavras na boca de Deus, mas ao mesmo tempo, livre do medo de errar, era como se o Pai dissesse: “Que vocês se relacionem na terra como nós nos relacionamos aqui no céu”. Portanto, é importante dizermos que relacionamento é algo que nasceu no céu. Não foi criado aqui na Terra para que aprendamos a partir de referências humanas. Não nasceu do nosso coração, porque seria corrupto. Existe um modelo fiel, perfeito e que nos traz esperança em encontrarmos o caminho da harmonia, da reconciliação e do amor em relação aos nossos próximos: o modelo relacional da Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Assim, Deus quer transportar o nosso entendimento, nos fazendo abandonar a forma humana de pensamento, muitas vezes baseada em mérito, resultado e recompensas.
Ao lermos o trecho de Mateus 18, a partir do verso 15, o mestre ensina sobre como se relacionar. O texto é extremamente rico no que diz respeito ao teor de princípios e valores espirituais que regem os relacionamentos. Antes de qualquer coisa, lembremos que são palavras de Jesus. O conteúdo da sua explanação é santo, e por isso, incorruptível. É água viva pura, diretamente da fonte, que cura nossa vida, nossas relações.
Gostaríamos de explorar com mais atenção o trecho que se inicia no versículo 18 e se estende até o 22. Aqui temos a essência do que significa relacionamento na perspectiva de Deus.

“...tudo que ligardes na terra será ligado no céu, e tudo que desligardes na terra, será desligado no céu.” v.18
O que Jesus quer nos ensinar aqui é que há autoridade em nossos relacionamentos. A possibilidade que temos de influenciar, de transformar realidades se torna verdade visível através dos vínculos estabelecidos. Não é que os homens têm a capacidade de mudar o coração de Deus ou reger os céus. Mais adiante (v.20) Jesus diz que a condição para que experimentemos essa realidade, é a de estarmos reunidos em seu nome. Se a reunião de fato é em nome dele, então não há possibilidade de estarmos fora do propósito de Deus. Tudo estará conforme a sua vontade e será feito. Então, não é o homem que muda a ideia de Deus, influenciando o céu, mas, ele encontra, reconhece, se entrega a vontade perfeita do Pai, quando estabelece vínculos no nome de Jesus. Nós encontramos o céu, quando estabelecemos relações santas na terra!
 O uso do nome de Cristo Jesus não é mera formalidade ou jargão evangélico, mas é o compromisso absoluto que fazemos, onde as nossas relações revelarão nada mais nada menos do que as virtudes de Deus. O nosso Senhor e Salvador é o regente do relacionamento. Então temos caracterizado um vínculo perfeito e por isso, quando ligamos essa relação na terra, ela também está ligada no céu, porque expressa a natureza da Trindade, é conforme os vínculos estabelecidos no céu.
Algo importantíssimo que precisamos aprender é que aqui Jesus nos ensina que a autoridade não está no indivíduo, mas na relação. É o vínculo que cria o ambiente para a autoridade. O indivíduo usufrui de poder (mandatário, coercitivo, legalista), mas só a relação cria autoridade (graça, amor, amizade).
“...se dois de vós concordarem na terra acerca de qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai.” v.19
Dizeres de Jesus que traduzem uma promessa avassaladora sobre nossas vidas. Logo pensamos naquilo que Deus poderia fazer por nós, suprindo toda “falta ou necessidade” seja ela física, de alma ou espiritual. Mas quando lembramos de que a própria Bíblia diz que “Seu divino poder nos deu todas as coisas de que necessitamos para a vida e para a piedade...” (2Pe 1:3), então entendemos que as nossas súplicas diante de Deus não podem ter um caráter individualista, apenas para celebrar uma conquista meritória. Cremos que Jesus nos chama a ampliar nosso entendimento sobre oração, uma vez que não se trata mais do meu desejo ou do seu desejo. Não é aquilo que queremos ver acontecer, mas aquilo que juntos, guiados pelo Espírito Santo, entendemos ser absolutamente necessário para que a vontade e o propósito de Deus se cumpra através de nós. Não é buscar opinião, quando cada um emite a sua, buscando discernir qual ideia é melhor, mas buscar revelação, quando cada um se dispõe a ser um com todos em busca do discernimento da boa, perfeita e agradável vontade do Pai.
O acordo é parte fundamental para a aplicação desse texto. Jesus não está se referindo apenas a um aceite ou a um “visto” naquilo que está sendo pedido. O siginificado da concordância vai muito além de só assentirmos gestualmente com a cabeça. O que Jesus quer dizer por concordância, tem a ver com fé, com compromisso, com certeza. Com a disposição de assumirmos a questão como nossa responsabilidade. Não é lidarmos com as coisas até o limite da nossa conveniência ou da nossa disposição de tempo e recursos, mas não colocarmos barreiras para que aquilo que o Espírito está revelando se transforme em realidade através de nossas vidas. É sermos convictos em relação ao que Deus revelou diante das adversidades, dos temores, das crises, revelando o que há de mais importante - um coração que está entregue a Deus, e que não negocia nos momentos críticos.
“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí eu estou no meio deles.” v.20
Jesus trata a questão dos relacionamentos numa perspectiva integral. Não pode existir relacionamento pleno com Deus, se não existir relacionamento com o próximo. O apóstolo João escreve: “Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso.” (1Jo 4:20). Também não conseguimos amar nosso próximo, se não conhecemos e experimentamos o misericordioso e incalculável amor de Deus. Quando recebemos aquilo que Deus fez por nós, na pessoa de Cristo Jesus, então nosso coração entende a graça de Deus. É o entendimento desse amor que nos capacita a de fato amarmos as pessoas. Fora disso, são apenas boas intenções e força de vontade, não há a presença de um amor isento de nós mesmos. Referendo esses dizeres, novamente com as palavras de João: “Nisto conhecemos o que é o amor: Jesus Cristo deu a sua vida por nós, e devemos dar a vida por nossos irmãos.” (1Jo 3:16).
Deus quer que entendamos o valor de uma vida que é íntegra, inteira, completa. Não existe relação genuína com o nosso próximo sem conhecer o amor de Deus. E também não há relação de amor com Deus (ainda que falemos que exista), se não amamos as pessoas.
É importante meditarmos na motivação das nossas relações. Antes, é preciso explorar algo relevante para nossa vida cristã. Há uma tendência do ser humano em buscar as coisas por interesse individual. Em relação ao evangelho não é diferente. No fundo, nossa carne pede que Deus seja fiel aos nossos desejos e realize as nossas vontades (ainda mais, quando não há aparência de pecado naquilo que se pretende!). Estabelecemos uma relação de troca, em que nós nos sacrificamos para que recebamos algum benefício vindo do céu. Uma relação causa/efeito com ênfase e grande expectativa no resultado. Uma mensagem que se concentra nas potencialidades daquilo que a pessoa pode receber de Deus. Ao invés de buscarmos aquilo que Deus tem para nós, mas ainda não conhecemos, estamos numa busca desenfreada de tentar convencer a Deus em relação aquilo que é o meu desejo ou necessidade. Um relacionamento baseado em interesse individual. Se Deus atende, ficamos felizes. Se Ele recusa ou simplesmente não responde da forma como esperamos, então atribuímos à Deus uma falta, como se Ele não estivesse sensível à nossa necessidade. O problema está instalado, e quase invariavelmente resulta em frustração e/ou abandono (quando buscamos outras fontes para o suprimento daquilo que não foi dado).  Se ficamos apenas nessa abordagem, priorizamos o resultado em detrimento do processo. Focamos em receber, ao invés de nos ocuparmos em aprender. A mensagem do Reino, é para que o nosso entendimento seja transformado e não para que recebamos aquilo que sempre queremos. O compromisso de Deus não é conosco, mas com a Sua vontade. O chamado não é para saciar a carência do indivíduo, mas para conhecermos, experimentarmos e repartirmos a vontade de Deus. Paulo, apóstolo de Cristo diz: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” (Rm.12:2). Há uma vontade a ser conhecida, experimentada, vivida e compartilhada. Aleluia!!
Quando estabelecemos um vínculo com Deus, de maneira que esperamos receber Dele alguma coisa em troca do nosso sacrifício, nós também transferimos essa mesma maneira de pensar para nossos relacionamentos pessoais. É o caminho mais rápido e direto para a frustrações, mágoas e ressentimentos. O que nos motiva a relacionar? Queremos aprender ou receber? É amor ou troca? Todas essas perguntas provavelmente já possuem as devidas respostas em nosso consciente. Porém saber é diferente de conhecer, experimentar. Creio que o nosso maior desafio é o da coerência, que podemos traduzir como sendo a distância daquilo que sabemos em relação àquilo que praticamos. Para isso, cremos na revelação da Palavra de Deus, no trabalho do Espírito Santo em nosso coração e na consequente disposição de obedecer.
Precisamos meditar e entender que a motivação do nosso coração não pode ser a de se relacionar para que sejamos retribuídos por algo. O propósito do relacionamento é que ele revele a natureza e as virtudes divinas que foram compartilhadas e repartidas com o homem, e que nunca se expressarão na individualidade. A vocação das relações humanas é revelar o que está oculto no relacionamento da Trindade. A glória de Deus há de ser revelada pelas pessoas, na relação. Lembremos as palavras de Jesus, ao final de seu ministério: “para que todos sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu, em ti; que também eles sejam um em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste... para que eles sejam perfeitos em unidade, e para que o mundo conheça que tu me enviaste...” (Jo 17:21-23). Então o próprio relacionamento é o propósito do vínculo estabelecido. É nesse ambiente que Deus vai ser plenamente conhecido por nós e pelos outros. O nosso desafio maior de entendimento é que saibamos que o relacionamento baste para nós, pois cremos que apenas isto (tudo isto!) é o sufuciente para que Deus seja conhecido em nosso meio e o seu amor compratilhado na terra. Assim, estamos livres e libertos para que colhamos todos os frutos que as nossas relações trarão para nós, entendendo que nosso coração está empenhado em ser referência do amor de Deus na vida de nossos irmãos.

Que a graça de Deus e a sua misericórdia nos guiem para que possamos desbravar esse caminho dos relacionamentos, com ousadia e prudência e sensibilidade!!